Atilio A. Boron
[*]
Entre 1988 e
2002, os 25% mais pobres da população mundial reduziram sua participação na
renda global de 1,16% para 0,92%, enquanto os opulentos 10% mais ricos
acrescentaram mais às suas fortunas, passando de dispor de 64,7% para 71,1% da
riqueza mundial. O enriquecimento de uns poucos tem como seu reverso o
empobrecimento de muitos.
Entre 1988 e
2002, os 25% mais pobres da população mundial reduziram sua participação na
renda global de 1,16% para 0,92%, enquanto os opulentos 10% mais ricos
acrescentaram mais às suas fortunas, passando de dispor de 64,7% para 71,1% da
riqueza mundial. O enriquecimento de uns poucos tem como seu reverso o
empobrecimento de muitos.
O
capitalismo tem legiões de apologistas. Muitos o são de boa fé, produto de sua
ignorância e pelo fato de que, como dizia Marx, o sistema é opaco e sua natureza
exploradora e predatória não é evidente aos olhos de mulheres e homens. Outros o
defendem porque são seus grandes beneficiários e amealham enormes fortunas
graças às suas injustiças e iniquidades. Há ainda outros (‘gurus’ financeiros,
‘opinólogos’ e ‘jornalistas especializados’, acadêmicos ‘pensantes’ e os
diversos expoentes desse "pensamento único") que conhecem perfeitamente bem os
custos sociais que o sistema impõe em termos de degradação humana e ambiental.
Mas esses são muito bem pagos para enganar as pessoas e prosseguem
incansavelmente com seu trabalho. Eles sabem muito bem, aprenderam muito bem,
que a "batalha de ideias" para a qual nos convocou Fidel é absolutamente
estratégica para a preservação do sistema, e não aplacam seus
esforços.
Para
contra-atacar a proliferação de versões idílicas acerca do capitalismo e sua
capacidade de promover o bem-estar geral, examinemos alguns dados obtidos de
documentos oficiais do sistema das Nações Unidas. Isso é extremamente didático
quando se escuta, ainda mais no contexto da crise atual, que a solução dos
problemas do capitalismo se consegue com mais capitalismo; ou que o G-20, o FMI,
a Organização Mundial do Comércio e o Banco Mundial, arrependidos de seus erros
passados, poderão resolver os problemas que asfixiam a humanidade. Todas essas
instituições são incorrigíveis e irreformáveis, e qualquer esperança de mudança
não é nada mais que ilusão. Seguem propondo o mesmo, mas com um discurso
diferente e uma estratégia de "relações públicas" desenhada para ocultar suas
verdadeiras intenções. Quem tiver duvidas, olhe o que estão propondo para
"solucionar" a crise na Grécia: as mesmas receitas que aplicaram e continuam
aplicando na América Latina e na África desde os anos 80!
A
seguir, alguns dados (com suas respectivas fontes) recentemente sistematizados
pelo CROP, o Programa Internacional de Estudos Comparativos sobre a Pobreza,
radicado na Universidade de Bergen, Noruega. O CROP está fazendo um grande
esforço para, desde uma perspectiva crítica, combater o discurso oficial sobre a
pobreza, elaborado há mais de 30 anos pelo Banco Mundial e reproduzido
incansavelmente pelos grandes meios de comunicação, autoridades governamentais,
acadêmicos e "especialistas" vários.
População mundial: 6.800 bilhões,
dos quais...
•
1,020 bilhão são desnutridos crônicos (FAO, 2009)
• 884
milhões não têm acesso à água potável (OMS/UNICEF, 2008)
• 924
milhões estão "sem teto" ou em moradias precárias (UN Habitat, 2003)
• 1,6
bilhão não têm eletricidade (UN HABITAT, "Urban Energy")
• 2,5
bilhões não têm sistemas de drenagens ou saneamento (OMS/UNICEF,
2008)
• 18
milhões de mortes por ano devido à pobreza, a maioria de crianças menores de 5
anos (OMS).
• 218
milhões de crianças, entre 5 e 17 anos, trabalham precariamente em condições de
escravidão e em tarefas perigosas ou humilhantes, como soldados, prostitutas,
serventes, na agricultura, na construção ou indústria têxtil (OIT: A eliminação
do trabalho infantil: um objetivo ao nosso alcance, 2006).
Somente esse 6,4% de aumento da
riqueza dos mais ricos seria suficiente para duplicar a renda de 70% da
população mundial, salvando inumeráveis vidas e reduzindo as penúrias e
sofrimentos dos mais pobres. Entenda-se bem: tal coisa se conseguiria se
simplesmente fosse possível redistribuir o enriquecimento adicional produzido
entre 1988 e 2002 dos 10% mais ricos. Mas nem sequer algo tão elementar como
isso é aceitável para as classes dominantes do capitalismo mundial.
Conclusão: se não se combate a
pobreza (que nem se fale de erradicá-la sob o capitalismo) é porque o sistema
obedece a uma lógica implacável centrada na obtenção do lucro, o que concentra
riqueza e aumenta incessantemente a pobreza e a desigualdade
socioeconômica.
Depois de cinco séculos de
existência eis o que o capitalismo tem a oferecer. O que estamos esperando para
mudar o sistema? Se a humanidade tem futuro, será claramente socialista. Com o
capitalismo, em compensação, não haverá futuro para ninguém. Nem para os ricos e
nem para os pobres. A frase de Friedrich Engels e também de Rosa Luxemburgo,
"socialismo ou barbárie", é hoje mais atual e vigente do que nunca. Nenhuma
sociedade sobrevive quando seu impulso vital reside na busca incessante do lucro
e seu motor é a ganância. Mas cedo que tarde provoca a desintegração da vida
social, a destruição do meio ambiente, a decadência política e uma crise moral.
Ainda temos tempo, mas já não tanto.
12 de
Maio de 2010
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