ENTREVISTA: Advogado Caruso falasobre os perigos da terceirização
Ela
precariza direitos, reduz salários e
impede criação de novos empregos
A
terceirização começou a ganhar terreno no final dos anos 80, início dos 90, com
o surgimento da globalização. Hoje é um fenômeno mundial que contribuí com a
precarização das relações trabalhistas.
No
Brasil, onde a legislação é falha e não regulamenta a terceirização, o problema
é ainda maior. Os trabalhadores terceirizados normalmente têm direitos e
benefícios inferiores aos oferecidos pela empresa tomadora do serviço.
Uma
pesquisa do realizada pelo Dieese em 2011, sobre os efeitos da terceirização no
mundo do trabalho e na economia, mostra que diferente do que empresários e
neoliberais defendem, 800 mil vagas de emprego deixaram de ser criadas em 2010
graças a terceirização.
Além
disso, a pesquisa também aponta outros dados preocupantes. As empresas
terceirizadas, por exemplo, respondem por oito em cada dez casos de acidente de
trabalho ocorridos no país. Além disso, funcionários terceirizados ganham em
média, 27% a menos.
Para
falar sobre esse assunto, o Jornal do Unificados entrevistou o advogado José
Mário Caruso Alcocer, do escritório Caruso, Arcaro, Souza e Aguiar Advogados
Associados, ex-advogado do Sindicato Químicos Unificados.
ENTREVISTA
“O patrão sempre enxerga o empregado como
custo”
Jornal do Unificados: A
terceirização e a precarização são hoje os maiores desafios apresentados ao
mundo do trabalho hoje?
Caruso: Em
busca de maiores lucros e menores riscos, os empregadores sempre estarão atrás
de novas fórmulas para driblar o sistema inventado e manipulado por eles.
Significa dizer, em outras palavras, que desde que foi concebida a terceirização
visou a precarização dos direitos trabalhistas. É mais uma forma encontrada
pelos patrões de exploração da mão de obra. Diante desta visão, resta à classe
operária se opor, veementemente, contra o avanço desta onda globalizante da
terceirização.
Jornal
do Unificados: Quais são os principais prejuízos da terceirização para
os trabalhadores?
Caruso: Os
prejuízos são vários, mas o principal deles é o econômico, pois implica em
redução do salário de um empregado que, muitas vezes e de forma disfarçada,
exerce as funções de um empregado não terceirizado, gerando assim uma
discriminação salarial, bem como redução e perda de outros direitos.
A
terceirização possibilita também, o aumento da rotatividade da mão de obra, além
daquela normal, pois o patrão sempre enxerga o empregado como custo e a
rotatividade é uma forma de reduzi-lo, aumentando assim seus lucros.
Jornal
do Unificados: Muita gente afirma que a terceirização é um caminho sem
volta. Você concorda?
Caruso: Em
hipótese alguma. Temos que ter em mente o seguinte: tal afirmativa só interessa
àqueles que detêm os meios de produção. A terceirização, como já foi dito, nada
mais é do que uma forma encontrada pelas empresas em se dedicar em um só foco de
sua atividade principal (atividade fim), relegando as demais atividades
(atividade meio ou atividade acessórias) a cargo de outras empresas. Tal
fenômeno se expandiu rapidamente no cenário nacional e internacional.
Jornal
do Unificados: Quais devem ser os pontos presentes em uma possível
reforma trabalhista?
Caruso: Em
se tratando deste tema da terceirização, deve-se restringi-la ao máximo. Ou
seja, as possibilidades de sua utilização devem ser nulas, tendo em vista os
malefícios causados aos direitos dos trabalhadores. Outro aspecto relevante deve
ser a de possibilitar a representação dos terceirizados pelo sindicato da
empresa tomadora de serviço. Para tanto os sindicatos devem promover uma reforma
em seus estatutos.
Jornal
do Unificados: Essa reforma na legislação pode resolver o problema da
terceirização?
Caruso: Não,
por diversos motivos. O principal deles é entender de que se trata de uma
posição ideológica enraizada no meio empresarial (entenda como sendo os
representantes do capital) e que por sua vez ainda detém o poder político e
econômico do país. Desta forma, o caminho mais eficaz passa pela mudança de
postura dos representantes da classe trabalhadora frente a este problema. Ou
seja, os representantes devem criar mecanismos protetivos que minem ou anulem
qualquer fórmula, aparente ou não, que visa a implantação e disseminação do
modelo terceirizante.
Jornal
do Unificados: Há alguns anos a economia mundial, em especial a
europeia, passa por uma grave crise. Como você vê a afirmação de que a
terceirização é uma das soluções para resolver essa crise?
Caruso: Quem
realmente acredita nesta solução e a divulga, na verdade não está interessado em
solucionar a crise e sim em mantê-la sob controle. Em todos os modelos
desenvolvimentistas criados pelos capitalistas as crises são cíclicas e
necessárias, visam o aperfeiçoamento para a sua perpetuação no poder. No
momento, na economia europeia, a terceirização não passa de um remédio paliativo
que não resolverá efetivamente a crise.
Fonte: Sindicato Químicos
Unificados
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